Mudança climática ameaça população e economias latino-americanas

Segundo relatório da Organização Meteorológica Mundial, OMM, o desflorestamento está em seu nível mais alto desde 2009; 22% a mais de área florestal da Amazônia desapareceu em 2021 em comparação a 2020; geleiras andinas perderam 30% de área e seca no Chile antecipa crise hídrica na região.


Por ONU News



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Pescador em cabana no topo do lago na Amazônia, Colômbia


Impactos climáticos extremos e alterações do clima, incluindo secas, tempestades, ondas de calor terrestres e marinhas e derretimento de geleiras estão afetando a região da América Latina e do Caribe, da Amazônia aos Andes.


Os dados são do estudo sobre a situação do clima na região, publicado pela Organização Meteorológica Mundial, OMM, nesta sexta-feira, e destaca os impactos do clima para ecossistemas, segurança alimentar e hídrica, saúde humana e pobreza.



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Trabalhador colhe café em San Marcos, Guatemala


Agressões ao meio ambiente

De acordo com o relatório, as taxas de desmatamento na região foram as mais altas desde 2009, o que causa um impacto direto tanto para o meio ambiente quanto para a mitigação das mudanças climáticas.


Na América do Sul, a degradação da floresta amazônica é destacada como uma grande preocupação para a região, mas também para o clima global, especialmente pelo papel da floresta no ciclo do carbono.


Segundo o levantamento, o desmatamento na floresta amazônica brasileira dobrou em relação à média de 2009 a 2018, atingindo seu nível mais alto desde 2009. Além disso, 22% a mais de área florestal foi perdida em 2021 em comparação a 2020.


Efeitos econômicos e sociais

A OMM lembra que o último relatório do Ipcc mostra mudança nos padrões de precipitação, elevação das temperaturas e áreas passando por mudanças na frequência e gravidade de extremos climáticos, como chuvas fortes.


Com o aquecimento e o aumento da acidez dos oceanos Pacífico e Atlântico, um impacto maior deve ser visto na América Latina, ameaçando o abastecimento de alimentos e água.


O secretário-geral da OMM, Petteri Taalas, explica que o levantamento mostra que riscos hidrometeorológicos, incluindo secas, ondas de calor, ondas de frio, ciclones tropicais e inundações, levaram à perda de centenas de vidas, danos graves à produção agrícola e infraestrutura, bem como deslocamento humano.


A análise do secretário-geral da OMM é confirmada pelo Escritório das Nações Unidas para Redução do Risco de Desastres, que registrou um total de 175 desastres durante o período 2020-2022.


Destes, 88% são de origem meteorológica, climatológica e hidrológica. Esses perigos foram responsáveis ​​por 40% das mortes registradas relacionadas a desastres e 71% das perdas econômicas.


Um exemplo citado pelo relatório são as inundações e deslizamentos de terra nos estados brasileiros da Bahia e Minas Gerais levaram a uma perda estimada de US$ 3,1 bilhões.


Nível do mar

Petteri Taalas adiciona que o estudo indica que o aumento do nível do mar e o aquecimento dos oceanos continuem a afetar os meios de subsistência costeiros, além do turismo, saúde, alimentação, energia e segurança hídrica, particularmente em pequenas ilhas e países da América Central.


De acordo com Taalas, em muitas cidades andinas, o derretimento das geleiras representa a perda de uma fonte significativa de água doce, usada para uso doméstico, irrigação e energia hidrelétrica.


Segundo a OMM, as geleiras andinas perderam mais de 30% de sua área em menos de 50 anos. Algumas geleiras no Peru perderam mais de 50% de sua área.


Mudança climática e pandemia

Na avaliação do representante da Comissão Econômica para América Latina e o Caribe, Cepal, o agravamento das mudanças climáticas e os efeitos da pandemia não apenas impactaram a biodiversidade da região, mas também paralisaram décadas de progresso contra pobreza, insegurança alimentar e redução da desigualdade na região.


Outra análise do relatório é que a saúde e o bem-estar serão afetados negativamente, juntamente com os ecossistemas naturais. A Amazônia, nordeste do Brasil, América Central, Caribe e algumas partes do México provavelmente verão secas constantes, enquanto os impactos dos furacões podem aumentar na América Central e no Caribe.

Para Mario Cimoli, enfrentar esses desafios e seus impactos associados exigirá um esforço conjunto, com ações baseadas em ciência. Ele adiciona que o relatório é uma fonte crítica de informações científicas para a política climática e a tomada de decisões.


Principais resultados

De acordo com os estudos da OMM, a tendência de aquecimento continuou em 2021 na América Latina e no Caribe. A taxa média de aumento ficou em torno de 0,2°C por década entre 1991 e 2021, comparado a 0,1°C a cada 10 anos entre 1961 e 1990.

O estudo aponta que o nível do mar na região continuou a subir em um ritmo mais rápido do que globalmente, com destaque para a costa atlântica da América do Sul, no Atlântico Norte e no Golfo do México.


As análises apontam que a elevação do nível do mar ameaça uma grande proporção da população que está concentrada em áreas costeiras, contaminando aquíferos de água doce, erodindo as linhas costeiras, inundando áreas baixas e aumentando os riscos de tempestades.



OMM - Geleiras no Chile e na Argentina recuaram significativamente nas últimas duas décadas


Seca persistente

A seca intensa na área central do Chile persistiu em 2021. Com 13 anos de duração, constitui a seca mais longa nesta região em mil anos, confirmando a tendência de seca e acelerando a crise hídrica no Chile.


Além disso, uma seca de vários anos na Bacia do rio Paraná e rio da Prata, a pior desde 1944, afetou o centro-sul do Brasil e partes do Paraguai e Bolívia. Segundo o relatório, os danos causados ​​pela escassez de chuvas reduziram a produção agrícola, incluindo soja e milho, afetando os mercados agrícolas globais.


Na América do Sul em geral, as condições de seca levaram a um declínio de 2,6% na safra de cereais 2020-2021 em comparação com a temporada anterior.

Já a temporada de furacões no Atlântico de 2021 teve o terceiro maior número de tempestades registradas. Foram 21, incluindo sete furacões, e foi a sexta temporada consecutiva acima do normal.


Insegurança alimentar e deslocamentos

A insegurança alimentar atingiu um total de 7,7 milhares de pessoas na Guatemala, El Salvador e Nicarágua em 2021, causada pelos impactos contínuos dos furacões Eta e Iota, no final de 2020, e impactos econômicos da pandemia de Covid-19.


Outro efeito da mudança do clima são as migrações e deslocamentos. Segundo o estudo da OMM, Andes, nordeste do Brasil e países do norte da América Central estão entre as regiões mais afetadas pelo problema, fenômeno que aumentou nos últimos 8 anos.


Recomendações

Para reduzir os impactos adversos dos desastres relacionados ao clima e apoiar as decisões de gestão de recursos e melhores resultados, a OMM aponta que são necessários serviços climáticos, sistemas de alerta precoce e investimentos sustentáveis, que ainda não estão adequadamente implementados na região.


Para a OMM, a América do Sul está entre as regiões com maior necessidade documentada de fortalecimento dos sistemas de alerta precoce, ferramentas essenciais para uma adaptação eficaz em áreas de risco.


Segundo a agência, é vital fortalecer a cadeia de valor dos serviços climáticos, incluindo sistemas de monitoramento, gerenciamento de dados, fortalecimento dos serviços climáticos, projeções e sistemas de informações

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