Práticas agrícolas regenerativas podem contribuir para o sequestro de CO2

Atividades que aumentem o sequestro e a retenção do carbono no solo, mesmo em pequena porcentagem, contribuem consideravelmente com a redução da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera


EDENISE GARCIA E FERNANDO CESARIO, DA THE NATURE CONSERVANCY BRASIL*



A agricultura regenerativa é proposta como uma solução para a produção sustentável de alimentos na busca por segurança alimentar (Foto: Unsplash/Jake Gard)


Com a população mundial beirando oito bilhões de habitantes e projetada para dez bilhões em 2050, a pressão pela produção de alimentos é cada vez maior. Neste contexto, a agricultura tradicionalmente praticada em todo o mundo – baseada na expansão sobre áreas de vegetação nativa, levando à degradação de solos e corpos hídricos, à fragmentação de habitats e à perda de biodiversidade e de serviços ambientais – precisa ser substituída urgentemente por práticas sustentáveis. Além disso, áreas potencialmente produtivas abandonadas ou subutilizadas, se restauradas, podem contribuir significativamente para a segurança alimentar mundial. Apenas no Brasil, cerca de 100 milhões de hectares de pastos, uma área quatro vezes maior que o estado de São Paulo, encontram-se com algum grau de degradação e poderiam ser beneficiados pela adoção dessas práticas.


Entre as várias práticas agrícolas alternativas, a agricultura regenerativa (AR) é uma das que mais vêm recebendo atenção significativa e crescente de produtores de alimentos, empresas, acadêmicos, ONGs e consumidores, bem como de tomadores de decisão e da grande mídia. Embora seu conceito e abrangência ainda não estejam claramente definidos, a AR é proposta como uma solução para a produção sustentável de alimentos na busca por segurança alimentar. Isso inclui atividades que resultem na melhoria da saúde do solo bem como da qualidade e disponibilidade de água, otimização da gestão de recursos e maior ciclagem de nutrientes, entre outras.


Segundo a FAO, para ser sustentável, a agricultura deve atender às necessidades das gerações presentes e futuras, garantindo rentabilidade, saúde ambiental e equidade social e econômica de acordo com cinco princípios: 1) aumentar a produtividade, o emprego e a agregação de valor nos sistemas alimentares; 2) conservar, proteger e melhorar os recursos naturais; 3) proteger e melhorar os meios de subsistência e promover um crescimento econômico inclusivo; 4) aumentar a resiliência das pessoas, comunidades e ecossistemas; e 5) desenvolver mecanismos de governança responsáveis e efetivos. Esses princípios são a chave para uma agricultura do futuro alinhada com os objetivos do desenvolvimento sustentável (ODS).


No Brasil, a despeito da grande pressão da expansão da agricultura sobre a vegetação nativa, as práticas regenerativas e sustentáveis pautadas em ciência e inovação vêm sendo consideradas há décadas. Nos anos 70, pesquisas com fixação biológica de nitrogênio iniciadas pela cientista Johanna Döbereiner permitiram a redução no uso intensivo de adubos nitrogenados. O país foi pioneiro ao lançar em 2012 o plano ABC (Agricultura de Baixo Carbono), uma iniciativa que fomenta várias técnicas regenerativas como o plantio direto, que protege e melhora o solo; a recuperação de pastagens degradadas, que gera um efeito poupa-terra, contribuindo para evitar o desmatamento; e a integração lavoura-pecuária-floresta, que integra e diversifica em um só lugar práticas agrícolas, pecuárias e florestais.


A adoção da AR tem também um papel muito importante na regulação climática. O sistema alimentar global atualmente libera cerca de 25% das emissões antropogênicas anuais de gases de efeito estufa (GEE). Estima-se que as plantas e animais do mundo contenham 560 bilhões de toneladas de carbono e que haja outros 800 bilhões de toneladas na atmosfera. O solo contém quase o dobro de carbono desses dois compartimentos juntos: 2.500 bilhões de toneladas. Consequentemente, atividades que aumentem o sequestro e a retenção do carbono no solo, mesmo em pequena porcentagem, contribuem consideravelmente com a redução da concentração de GEE na atmosfera.


O plantio direto, a transição de cultivos intensivos em carbono, como arroz, para espécies de emissões mais baixas, como trigo ou o cultivo de soja em áreas de pastagem de gado abandonadas são alguns exemplos de atividades que podem trazer grandes benefícios de carbono. Embora fáceis de rastrear, algumas dessas práticas são, no entanto, de difícil implementação, visto que requerem mudanças de hábitos alimentares ou culturais.


Numa perspectiva moderna da agricultura regenerativa, além da seleção de novas culturas e de práticas de manejo do solo, pesquisadores têm trabalhado na bioengenharia de novas plantas e micróbios para que a agricultura possa rivalizar com as florestas como sumidouro de carbono. Cientistas do Instituto Salk para Estudos Biológicos, na Califórnia, criaram o Programa de Remoção de CO2 em Escala Planetária (CroPS). Esse programa integra a Iniciativa de Aproveitamento de Plantas e desenvolve estudos sobre plantas cultivadas visando desenvolver raízes maiores e mais profundas que contenham polímeros naturais, como a suberina, com alto potencial para capturar CO2 e resistente à decomposição, contribuindo para a manutenção do carbono no solo. Milho, soja, arroz, canola, sorgo e alfafa estão entre as plantas estudadas.


Outras tecnologias buscando maior efetividade das práticas agrícolas em termos de sequestro e retenção de carbono estão sendo desenvolvidas, incluindo a aplicação de rochas alcalinas esmagadas sobre terras produtivas com o uso de equipamentos agrícolas. O processo de intemperismo dessas rochas liberaria nutrientes necessários ao crescimento das plantas, como magnésio, cálcio, além de pequenas quantidades de zinco e cobre, possivelmente restaurando solos e aumentando a produtividade, além de capturar CO2.


Acredita-se que com as práticas regenerativas tradicionais ou baseadas em novas tecnologias os agricultores possam aumentar os rendimentos, sequestrar carbono e se beneficiar da venda de créditos para compensação de emissões de GEE geradas pela indústria. Esse processo possibilitaria também uma transformação gradual, global e realista do sistema de financiamento do setor agrícola, que se tornaria mais autofinanciado e menos dependente de subsídios governamentais.


Porém, há controvérsias sobre o real potencial de mitigação das mudanças climáticas associado à AR que precisam ser consideradas:


1. O uso de práticas de armazenamento de carbono em áreas de agricultura pode resultar em produtividade mais baixa, o que, por sua vez, pode incentivar os agricultores a expandirem sua produção sobre áreas de vegetação nativa para compensar a diferença. Como as áreas naturais armazenam mais carbono acima do solo que as agrícolas, essa expansão levaria a emissões líquidas de CO2, mesmo com a adoção de AR.


2. Pesquisas recentes sugerem que processos naturais no solo reciclam carbono para a atmosfera mais rápido do que se acreditava. Novos e poderosos microscópios e técnicas como ressonância magnética nuclear e espectrocospia de raio X permitiram aos cientistas do solo identificar que a maioria das moléculas no solo podem ser decompostas, mesmo as de húmus, que eram até pouco tempo consideradas recalcitrantes; ou seja, micróbios parecem ter aprendido a quebrar qualquer coisa. Além disso, a quantidade de carbono que pode ser liberado do solo em condições de aumento de temperatura é muito maior que o que se pensava.


3. Os avanços no setor agrícola ocorrem lentamente e a implementação de práticas regenerativas em escala pode ser dificultada pela aversão dos produtores a novas práticas, assistência técnica de difícil acesso ou custos de adoção impeditivos.


4. Para que as fazendas ofereçam compensações de carbono atreladas às práticas agrícolas, é necessário certificar que o armazenamento de carbono é real e permanente. Para tanto, além de uma definição uniforme, indicadores e benchmarks devem ser criados para avaliar os impactos da AR. No final de 2021, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) destinou US$ 10 milhões para a primeira fase do monitoramento de carbono no solo, focada em áreas de vegetação nativa. Esse monitoramento servirá para preencher lacunas de conhecimento, mas ainda será necessário esperar alguns anos para que um monitoramento extensivo em terras agrícolas seja realizado.


As incertezas e desafios associados à quantificação de carbono no solo levaram um grupo de cientistas a manifestar sua preocupação numa carta aberta enviada à Climate Action Reserve, que realiza o registro de compensações de emissões de GEE para o mercado de carbono e que está desenvolvendo o Protocolo de Enriquecimento de Carbono a ser aplicado a projetos envolvendo a remoção de carbono por manejo do solo. Entre as questões técnicas levantadas, as principais estavam relacionadas à amostragem e verificação, adicionalidade e permanência.


Finalmente, na situação global atual, com uma pandemia mal resolvida e uma guerra que afeta a produção e distribuição de alimentos e o suprimento de energia, mesmo países desenvolvidos fazem face à insegurança alimentar e energética. Neste cenário, os desafios da produção de alimentos nutritivos e suficientes para uma população crescente são ainda maiores. Entretanto, face aos eventos climáticos extremos cada vez mais comuns, não há tempo para colocar em espera práticas produtivas sustentáveis e de baixo carbono como as preconizadas pela AR. Da mesma forma, estudos sobre alternativas para o sequestro de carbono associados à agricultura não podem parar. Afinal, para frear as mudanças climáticas, são necessárias estratégias múltiplas e diversas.


*Edenise Garcia é diretora de ciências e Fernando Cesario é especialista em carbono, ambos na The Nature Conservancy (TNC) Brasil.

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