Cidades em zonas costeiras sofrem sérios riscos por causa do aquecimento do planeta, diz cientista


Por Amelia Gonzalez


Quem acompanha e estuda a trajetória da ciência que tenta clarear para o mundo os impactos das atividades humanas sobre o clima do planeta há de conhecer este nome: James Hansen. O cientista, ex-diretor do Instituto Goddard para Estudos Espaciais, da Nasa, foi o primeiro a contar para os congressistas norte-americanos a novidade sobre a relação entre o aquecimento global e os gases de efeito estufa. Isso aconteceu em 23 de junho de 1988, e a primeira sessão que juntou cientistas do mundo inteiro no famoso Panel on Climate Change (IPCC), que atestou cientificamente o que Hansen falou apenas em 2007, só ocorreu em novembro daquele ano. Se não conseguiu fazer reverberar a notícia a ponto de já naquela época se tentar um acordo para baixar as perigosas emissões, Hansen conquistou um outro objetivo: fazer com que os norte-americanos começassem a se importar com essa notícia. Dados do livro “This Changes Everything”, escrito por Naomi Klein, ainda sem tradução no Brasil, dão conta de que houve um salto, de 38% para 79% de norte-americanos que passaram a conhecer, pelo menos de ouvir falar, os efeitos dos gases de efeito estufa sobre o meio ambiente depois que Hansen expôs sua teoria. Em abril deste ano, Hansen deu uma entrevista – o que não é muito frequente em sua carreira - para a editoria de meio ambiente do jornal britânico “The Guardian” , em que se diz decepcionado com a lentidão dos líderes mundiais em reconhecer o que considera óbvio: a elevação do nível do mar por conta da queima absurda de combustíveis fósseis. O cientista não demonstra nenhuma dúvida quando afirma que o planeta vai perder as zonas costeiras, agora ocupadas pela maior parte das grandes cidades do mundo, Rio de Janeiro entre elas. Fico pensando qual seria a reação dele ao saber da ciclovia que o prefeito Eduardo Paes decidiu construir bem ali, ao sabor das ondas, e que ruiu em abril, causando a morte de dois homens. Não custa lembrar que Eduardo Paes é líder do grupo de cidades globais chamado C40, cuja missão oficial, que consta no site da instituição, “é combater as alterações climáticas ao mesmo tempo que aumenta a saúde, o bem-estar e as oportunidades econômicas dos cidadãos urbanos”. Bem, mas vamos voltar a Hansen e o que ele diz e pensa hoje sobre o movimento ambientalista e suas atividades frente às mudanças do clima. Depois que deixou a Nasa, o cientista se tornou um ativista radical. Ainda como diretor da agência espacial, ele já havia sido preso durante manifestação em frente à Casa Branca, em Washington, contra o oleoduto Keystone. Algum resultado rendeu a manifestação, pois o presidente Obama rejeitou a obra do oleoduto que percorreria os Estados Unidos desde o Canadá até o Golfo do México. Na entrevista à jornalista Katherine Bagley, do “The Guardian”, Hansen diz que não se considera um alarmista, mas garante que é necessário fazer um alerta para os cidadãos do mundo: se (seria melhor usar o advérbio quando?) a Terra aquecer mais dois graus até o fim do século, como está sendo previsto, é mesmo inevitável uma subida do mar em vários metros. “O último período glacial anterior, há 120 mil anos, é que registrou uma temperatura mais quente do que a que estamos sentindo atualmente. Naquela época, o nível do mar foi de 6 a 9 metros mais alto - isso significaria a perda de quase todas as cidades costeiras. É impensável que estejamos caminhando para esta situação de olhos abertos e sem compreender ou dar crédito à ciência”, disse ele. Hansen é criticado por apoiar a energia nuclear como uma forma de se tentar diminuir as emissões de gases do efeito estufa e, assim, minimizar os impactos. É uma posição polêmica e ousada, levando em conta que a maioria dos ambientalistas condena essa fonte de energia. A repórter do “The Guardian” lançou a pergunta e o cientista se defendeu, atacando: “Acho muito interessante que os ambientalistas tenham se tornado antinucleares. É só voltar um pouco no tempo, até o meio do século passado, para perceber que pelo menos alguns deles já assinalaram que a energia nuclear teria que ser a melhor opção para o futuro justamente porque não tem um impacto ambiental severo. Um pedaço de urânio, do tamanho de uma bola de pingue-pongue, tem energia suficiente para abastecer uma pessoa até os 100 anos de idade. E, ao contrário dos combustíveis fósseis, não despeja gases de efeito estufa e aerossóis na atmosfera. Nós, os ocidentais, levamos nosso padrão de vida adiante contando com os combustíveis fósseis. Se o resto do mundo passar a fazer a mesma coisa, temos que estar preparados. China e Índia, por exemplo, sabem que eles não podem obter do sol ou do vento toda a energia de que necessitam para se desenvolver. Essas fontes não são uma solução completa”, disse ele. Além do impacto maior, talvez o que mais danos vai causar, que é o aumento do mar, Hansen aponta outra grave consequência do aquecimento global para a humanidade: a extinção das espécies. “Teremos um planeta muito menos confortável se extinguirmos as espécies como estamos fazendo”, comenta Hansen. O cientista pontuou, na entrevista, a atuação dos jovens norte-americanos, que apoiaram o presidente Barack Obama quando ele disse ao mundo que temos um “planeta em perigo”. Tudo bem, foi uma boa iniciativa querer estar ao lado de um governante com um pensamento afinado com os ambientalistas. Mas, segundo Hansen, na verdade o que faltou àqueles jovens era informação: “Eles não sabiam o que perguntar ao novo presidente. Sendo assim, Obama propôs políticas que foram baseadas em soluções equivocadas, como cap and trade (quando um número de licenças é alugado ou vendido para empresas que queiram se desfazer de um poluente específico por um período de tempo). Penso que de uma próxima vez será melhor que os jovens elejam uma pessoa que não só entenda do problema, mas também saiba o que funciona e o que não funciona para solucioná-lo”, pontua ele. Faz sentido.


Fonte: http://g1.globo.com/natureza/blog/nova-etica-social/post/cidades-em-zonas-costeiras-sofrem-serios-riscos-por-causa-do-aquecimento-do-planeta-diz-cientista.html


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O projeto Tempo de Aprender em Clima de Ensinar foi criado pela equipe do Laboratório de Meteorologia da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (LAMET/UENF), com o intuito de discutir com alunos e professores de escolas públicas as diferenças entre os conceitos de “tempo” e “clima” através de avaliações e estudos das características da atmosfera.

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