Friagem na Amazônia


Por Maria Assunção Faus da Silva Dias*


O termo “friagem” tem um sentido muito especial na Amazônia. Representa um evento singular com enorme impacto na vida das pessoas e na fauna. As pessoas sentem muito frio, não tem agasalhos adequados, sofrem por uns dias e há grande mortandade de peixes associada à passagem do ar frio.


Como qualquer região próxima do Equador, a Amazônia se caracteriza por pequenas variações de temperatura. Tanto a amplitude diária de variação da temperatura como a anual, são pequenas quando comparadas com regiões de latitudes subtropicais e latitudes médias. A friagem muda essa situação de forma surpreendente.


A temperatura na parte central da Amazônia varia tipicamente entre 23 0C e 32 0C. Um pouco mais ao sul, nas latitudes de Rondônia e Acre a amplitude é um pouco maior, a temperatura variando entre 17 0C e 32 0C. Quando uma frente fria se aproxima da Amazônia podendo chegar até Manaus, o ar frio e seco provoca quedas de temperatura em poucas horas da ordem de 10 a 15 0C no sudoeste da Amazônia e de tipicamente 5 a 10 0C na região central e noroeste. O termo friagem é usado localmente para essas ocorrências. Friagens ocorrem com maior frequência nos meses de junho a agosto, mas há casos que ocorrem também em todos os outros meses do ano, inclusive no verão.


O ar frio e seco atrás da frente fria vai se propagando para norte tendo como limite a oeste a Cordilheira dos Andes que impede que esse ar vá para oeste. A frente vai se propagando para nordeste, perdendo intensidade, e apenas uma leve fronteira entre ar úmido e seco persiste até cruzar o Equador. Mas na parte oeste da Amazônia a queda de temperatura é marcante e muito conhecida localmente desde tempos imemoriais. As populações indígenas de Rondônia, Acre e Alto do rio Negro têm lendas a respeito das friagens envolvendo os seus impactos e os deuses que as mandam para castigar os homens! A morte dos peixes é vista como um sinal poderoso dos céus!


*É doutora em Ciências Atmosféricas pela Universidade do Colorado e professora na Universidade de São Paulo. Produziu o conteúdo com exclusividade para o projeto Tempo de Aprender em Clima de Ensinar.


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O projeto Tempo de Aprender em Clima de Ensinar foi criado pela equipe do Laboratório de Meteorologia da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (LAMET/UENF), com o intuito de discutir com alunos e professores de escolas públicas as diferenças entre os conceitos de “tempo” e “clima” através de avaliações e estudos das características da atmosfera.

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