Por que a forma de lidarmos com os mortos ficou insustentável


Diante de falta de espaço e contaminação da natureza, setor funerário quer encontrar novas técnicas para dar fim aos corpos


(Ilustração: André Ducci)


Em média, 1,8 pessoa morre por segundo no mundo. Isso significa que, no tempo que você lê essas duas frases, 14 terráqueos dão os últimos suspiros. Essa taxa parece pequena se comparada à de 4,3 habitantes que a Terra ganha a cada segundo, mas é difícil falar em números quando a pessoa morta era um familiar ou amigo querido. Em tempos de aquecimento global e crise econômica, porém, a discussão sobre os termos práticos relacionados à perda de alguém é cada vez mais necessária, alertam pesquisadores da área.

Dentre eles está o britânico John Ashton, ex-presidente da Faculdade de Saúde Pública do Reino Unido. Ele virou notícia em 2019 quando publicou um artigo sugerindo que passemos a enterrar corpos humanos ao lado de rodovias. “Os cemitérios europeus estão lotados e não temos mais onde enterrar nossos mortos”, reforça à GALILEU. Para ele, a solução é prática e eficaz. “Meu argumento é o de que, enterrando pessoas onde residências e edifícios comerciais não podem ser construídos, não apenas forneceremos uma solução para a escassez de cemitérios como também ajudaremos no combate ao aquecimento global.” A forma pela qual lidamos com nossos mortos hoje é problemática para o meio ambiente em diversos aspectos. Primeiramente, como diz Ashton, a falta de espaço para enterros é uma questão a ser considerada. Em segundo lugar vem o desperdício de recursos. De acordo com uma pesquisa feita pelo jornal Irish Times, em uma área de 40 mil metros quadrados acabamos enterrando madeira suficiente para a construção de 40 casas medianas. Para completar, a madeira dos caixões, na maior parte das vezes, é revestida de produtos prejudiciais à natureza — sem falar no formaldeído, substância utilizada para conservação dos corpos. Quando o assunto é cremação, as informações também não são animadoras. O tempo para transformar um corpo em cinzas varia conforme o tamanho do falecido, mas, considerando uma média de 75 minutos por processo, são usados 285 quilowatts/hora de gás e 15 quilowatts/hora de eletricidade — o que equivale, segundo dados do The Guardian, ao total de energia que um britânico gasta em casa por mês. Além disso, é preciso considerar as emissões de carbono ao cremar. Katrina Spade, diretora do Recompose, explica que os gases que saem dos cadáveres não são danosos, mas destaca que para o descarte de apenas um corpo são necessários, em média, 106 litros de combustível, cuja queima libera 245 quilos de CO2 — equivalente à decomposição de 350 quilos de lixo.

No Brasil, onde o IBGE registra que 1,3 milhão de pessoas morreram só em 2017 (dado mais recente disponível), o impacto também é grande. 7O Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil (Sincep) estima que 10% desses cadáveres tenham sido cremados. Assim, 31 mil toneladas de dióxido de carbono foram lançadas na atmosfera. Isso preocupa especialistas como Maria Júlia Kovács, professora de Psicologia da Morte na USP: “O Brasil precisa urgentemente começar a falar sobre um mercado funerário menos danoso ao meio ambiente”.


Outros materiais, como o mercúrio, são extremamente prejudiciais tanto à natureza quanto aos profissionais da área funerária. Robert Connolly explica no livro Over Your Dead Body (Por Cima do seu Cadáver, em tradução livre) que 60% da poluição causada por esse metal no Reino Unido é proveniente de próteses dentárias vaporizadas com os restos mortais.


Estrago além da vida

Técnicas de conservação de corpos tampouco são alternativas ecológicas. Os processos, que substituem os líquidos corporais por uma mistura de água e formaldeído, retardam a decomposição do cadáver e o tornam mais apresentável, mas não são obrigatórios. No Brasil, a Anvisa os exige somente para transporte aéreo ou aquático do corpo. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a menos que alguém morra de uma doença contagiosa — como o ebola —, o cadáver fresco não é mais “perigoso” para os vivos. Por outro lado, o formaldeído oferece, sim, risco. Em 2009, a ONU classificou essa substância como cancerígena e, em 2015, um estudo publicado no Journal of Neurology Neurosurgery & Psychiatry apontou que quem trabalha com esse produto tem quatro vezes mais chances de desenvolver esclerose lateral amiotrófica (ELA). Além disso, os corpos conservados com produtos químicos são um problema para o solo, pois podem vazar e contaminar até mesmo os lençóis freáticos. As origens da prática de preservar corpos remontam ao Antigo Egito, mas as técnicas usadas atualmente são inspiradas no período da Guerra de Secessão (1861-1865). Durante o conflito, Thomas Holmes — o pai da indústria funerária moderna — deu um jeito para que familiares dos combatentes pudessem ver os cadáveres em bom estado depois de longas viagens. A agente funerária norte-americana Caitlin Doughty, famosa por compartilhar seu dia a dia nas redes sociais e em livros, explica em Confissões do Crematório (DarkSide) que a disseminação desses métodos distanciou as pessoas da morte. A prática transformou em produto um ritual que era caseiro: antes, tanto a preparação do morto quanto o velório eram realizados pelos próprios familiares. Tom Almeida, organizador do Festival inFINITO, evento em São Paulo que promove conversas sobre morte e luto, reforça a crítica de Doughty: “Nós terceirizamos todo o processo fúnebre. Não preparamos o corpo nem o velório, cuidamos apenas das partes burocráticas”, ressalta.


Doughty e Almeida fazem parte de um movimento crescente no mercado funerário. Para eles, é essencial promover uma relação mais próxima entre a finitude da vida e o cotidiano, pois só assim poderemos ter lutos mais saudáveis. “Precisamos encontrar um ponto de ponderação e deixar de ver a morte como um fracasso”, argumenta o brasileiro. “Só conversando sobre o assunto podemos torná-lo mais fácil.”


De fato, a morte é um tabu. Se anos atrás presenciar um parto era só para profissionais da saúde, hoje o nascimento de um bebê é amplamente registrado e conta com a família na sala de espera. A prática, para Gisela Adissi, presidente do Sincep, mostra um caminho para encarar também a morte de forma natural. “Quando fingimos que ela não existe, o processo se torna ainda mais difícil. É essencial colocar esse assunto sobre a mesa. Vida e morte são dois lados da mesma moeda.”


Seu corpo, suas regras

“Mostre-me a forma como uma nação cuida de seus mortos e medirei com exatidão matemática a ternura e a piedade de seu povo, seu respeito pelas leis da terra e sua lealdade aos altos ideais.” A citação é atribuída a William Gladstone (1809-1898), ex-primeiro-ministro britânico. Não se sabe se ele proferiu mesmo essas palavras, mas fato é que elas se tornaram mantra para quem estuda o tema.


Assim como o ex-governante, Adissi ressalta que evitar lidar com a morte é também abafar a tristeza, sentimento intrínseco ao ser humano. “Não podemos continuar reforçando a ideia de que ter sucesso é ser feliz o tempo todo, pois isso não existe.” Para ela, um exemplo bem mais saudável de luto é o praticado na região de Tana Toraja, na Indonésia.


Por lá os cadáveres são embalsamados, mas o enterro só acontece quando a família arrecada dinheiro suficiente para um ritual digno — o que pode levar anos. Nesse período, o ente querido (e morto) tem suas vestimentas trocadas, suas refeições servidas e até “dorme” na cama com parentes. A Ma’nene, como é chamada a tradição, é não apenas uma forma de respeito mas também um modo de se despedir gradualmente de quem se foi.


Já no Japão, onde 99% dos mortos são cremados — não antes de um velório de dias —, os familiares se envolvem em um ritual denominado Kotsuage: reúnem-se ao redor dos ossos restantes da cremação e os colocam em uma caixa. É uma maneira de honrarem o morto. Já no Ocidente, nosso assombro é tamanho que, depois de submetidos a altas temperaturas, os restos mortais passam ainda pelo “cremulador”, aparelho que transforma os ossos residuais em pó.


Para escrever seu livro mais recente, Para Toda a Eternidade (DarkSide), Doughty viajou pelo planeta para entender rituais como esses. Em entrevista à GALILEU, conta como o fato de sair da realidade ocidental abriu seus olhos. “Concluí que, se uma cultura faz algo para melhorar sua experiência com a morte, não posso ser arrogante e achar que a maneira como fazemos por aqui é a ‘mais correta’.”


É verdade que dormir na mesma cama com o cadáver de seu avô por 12 anos talvez não seja a ideia geral de luto saudável, mas é essencial considerar outras possibilidades que não a corrente. “Estamos assistindo a uma mudança positiva no mercado funerário. As pessoas não se identificam mais com os rituais, pois a distância e a narrativa de um velório já não fazem mais sentido para elas”, afirma Adissi.


Dessa para uma melhor

Após anos trabalhando com pacientes terminais, o especialista em cuidados paliativos Steven Pantilat, da Universidade da Califórnia, percebeu que tratar a morte como assunto essencialmente biológico está longe de ser o ideal. “Precisamos discutir o luto para podermos viver nossas vidas da melhor forma possível e proporcionar rituais fúnebres que nos envolvam psicológica e espiritualmente”, diz o médico.


É justamente nessa linha de pensamento que alternativas à cremação e ao enterro convencionais têm surgido. Uma prática já testada é a aquamation, cujo nome técnico é hidrólise alcalina. O método consiste em colocar o cadáver em uma câmara pressurizada cheia de água e hidróxido de potássio, aumentando a temperatura até aproximadamente 160 °C. O procedimento acelera a decomposição natural e, ao fim do processo, restam apenas água esverdeada e o pó dos ossos.


Outra ideia, essa para enterros, é a Capsula Mundi, desenvolvida na Itália. O projeto consiste em transformar os restos mortais em uma espécie de casulo que deve ser enterrado com sementes para que vire uma árvore. A proposta completa ainda não saiu do papel, mas a empresa já disponibiliza uma urna biodegradável, que deve ser preenchida com cinzas de cremação e, só aí, enterrada junto com sementes. Nesse caso, o dano ambiental resultante da cremação ainda existe — e as cinzas não se transformam efetivamente em nutrientes para a planta, pois são compostas basicamente de carbono, já abundante no solo. “A questão não é comprar uma urna biodegradável, mas ajudar a ideia a ganhar espaço”, explica Anna Citelli, da Capsula Mundi.


Outro método ecológico em desenvolvimento é o Promessa. Criado pela bióloga sueca Susanne Wiigh-Mäsak, consiste em um enterro feito da maneira mais natural possível, sem uso de substâncias para conservação do cadáver, em um terreno que facilite a decomposição para, aí sim, que os nutrientes sejam devolvidos à natureza.


No Brasil, ao menos por enquanto, a alternativa mais viável para quem não quer cremar ou enterrar o corpo da forma tradicional é doá-lo para a ciência. Contudo, após contribuir com estudos em universidades, por exemplo, os restos acabam ganhando o mesmo fim que os dos demais defuntos.

Se esse será ou não o seu destino, futuro cadáver, já é necessário pensar. Aliás, do começo ao fim desta leitura de cerca de 22 minutos, 2.376 pessoas já devem ter morrido no mundo — e o que acontecerá com o corpo de cada uma delas diz mais sobre quem fica do que sobre quem se foi.




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O projeto Tempo de Aprender em Clima de Ensinar foi criado pela equipe do Laboratório de Meteorologia da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (LAMET/UENF), com o intuito de discutir com alunos e professores de escolas públicas as diferenças entre os conceitos de “tempo” e “clima” através de avaliações e estudos das características da atmosfera.

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