Arroz, feijão e clima: comer bem pode ajudar o planeta

Quando os cientistas anunciam que algumas das consequências do aquecimento do planeta já são irreversíveis, muitos se perguntam: “o que eu posso fazer para mudar isso?”.


Por Cinthia Leone/ Climainfo



Foto: IStock

A crise climática exige que todos façam a sua parte, e nenhum país do mundo - ou pessoa - pode resolver o problema sozinho. Mas há sim uma atitude individual que pode fazer cada vez mais diferença na proteção do clima global: a mudança nos hábitos alimentares.

Saúde Planetária'', termo publicado pela primeira na revista The Lancet, é uma ideia que une a necessidade de comer de maneira saudável com a proteção do clima. O conceito vai além de reduzir o consumo de produtos de origem animal, que geram grandes volumes de gases causadores do efeito estufa. Ele passa também por redescobrir a biodiversidade local, dar preferência a alimentos da época, encurtar distâncias entre a produção e o consumo, reduzir processamentos e valorizar produtores e extrativistas.

“No sistema atual, a forma de produzir, de disponibilizar o alimento acaba promovendo uma alimentação que não é saudável e que destrói o ambiente. Com todos os problemas que as pessoas têm, no final do dia, elas querem comer e ficar bem com a família, não querem pensar sobre isso, nem ficar horas na cozinha. É por isso que a gente tem que buscar opções flexíveis de como tornar a alimentação mais sustentável”, explica a nutricionista Aline de Carvalho, professora da Universidade de São Paulo (USP). Ela coordena o projeto de extensão Sustentarea, que busca popularizar o conceito de saúde planetária.

“No artigo da Lancet, eles chegaram a publicar uma sugestão de dieta para todo mundo. Sabemos que aquilo não é real, as pessoas não vão comer daquela forma. Aquilo serve como um ponto de partida para a gente buscar soluções que sejam viáveis para a nossa população”, defende Carvalho.

“Uma parte do conceito de saúde planetária está embutida em experiências como o movimento slow food, na Itália. A alimentação sustentável vai além disso ao incluir elementos como a valorização da biodiversidade”, explica a também nutricionista Raquel Santiago, professora da Universidade Federal de Goiás.

“Vamos comer o que tem aqui no nosso entorno e que faz parte da nossa história, do nosso hábito? Essa estratégia é boa para o planeta e pode nos proporcionar mil descobertas, formas de preparo e uso.”

Reduzir emissão

No mundo todo, os produtos de origem animal são destaque por gerarem grandes volumes gases do efeito estufa, por exemplo, o metano, muito presente nos arrotos e nas fezes do gado bovino e nos dejetos da criação de porcos. Quando florestas são derrubadas para virar pastagem ou plantação de grãos, a emissão de carbono da carne, leite e derivados fica ainda maior, inclusive porque os grãos são muitas vezes usados na própria ração animal.

No Brasil, boa parte do desmatamento está ligada à pecuária ou à soja, e a destruição das florestas é a principal fonte de gases de efeito estufa do país, que hoje é 6 maior emissor global.

“Só pra gente ter uma ideia, 1 kg de carne no Brasil são 44 kg de CO2. Se a gente for comparar com outros alimentos proteicos de origem vegetal, a proporção costuma ser de 1kg de produto para 5kg de CO2. Ou seja, a redução da carne tem impacto na pegada de carbono da dieta inteira”, afirma Carvalho.

Mas há produtos de origem vegetal que também prejudicam o clima, devido à forma como foram cultivados - o uso excessivo de fertilizantes também libera carbono para a atmosfera, assim como desmatamento e queimadas para liberar o plantio.

Outro fator importante para entender as emissões do seu prato é a distância que a comida percorreu até chegar à sua mesa. Como a maior parte dos alimentos no Brasil são transportados de caminhão, muitas vezes refrigerado, quanto mais de longe vem a comida, mais poluição ela gerou até chegar a você. E não se esqueça: o transporte usado para buscar o alimento no mercado também entra na conta.

Como fazer

Se você tem o privilégio de escolher sua comida, prefira alimentos orgânicos e produzidos pela agricultura familiar. Faça compras em mercados, sacolões, padarias e feiras-livres próximos à sua casa. Como o preço da carne está muito alto, alimentos protéicos de origem vegetal podem ser uma saída: grãos como o feijão, lentilha e grão de bico são os mais populares e podem ganhar cara de mistura em forma de hambúrguer e almôndega.

Alimentos da biodiversidade

As plantas nativas demandam menos medidas de adaptação e adubação e por isso são mais sustentáveis. O Brasil tem a maior biodiversidade do planeta e com isso uma enorme variedade de plantas com valor nutricional, mas o longo processo de colonização do país fez com que a comida brasileira fosse rica em ingredientes de fora. Mudar isso pode gerar mais segurança alimentar e fortalecer produtores locais.

“Isso já vem mudando, com chefes de cozinha renomados usando ingredientes da biodiversidade brasileira. A mandioca é exemplo de um alimento brasileiro importante e que está sendo mais valorizado pela gastronomia, com suas farinhas e subprodutos”, afirma Carvalho.

“A lógica do fruto da biodiversidade muitas vezes se resume a licor, geléia e às vezes farinha. Mas há espécies com muito mais potencial, como o jatobá, que é delicioso e pouco difundido”, lamenta Santiago.

“O melhor caminho é ensinar as pessoas sobre esses frutos, para que elas desenvolvam novos usos, novas formas de aproveitamento”.

Como fazer

A ora-pro-nobis é uma planta originária do continente americano conhecida por suas flores volumosas e em cachos. Sua folha é rica em proteínas e muito usada na culinária mineira e de todo o Centro-Oeste. O vegetal, que faz parte do grupo de alimentos que os nutricionistas chamam de PANCs (Plantas Alimentícias Não Convencionais) acompanha bem assados e ensopados e por ter proteína pode ser o prato principal em omeletes, tortas e fritadas.

Justiça alimentar

Uma alimentação sustentável também depende de condições justas de produção e de acesso à comida.

“Durante a pandemia, jornais escreveram sobre redução do consumo de carne ou sobre pessoas cozinhando com lenha como se isso fosse maravilhoso. Isso na verdade é grave”, explica Carvalho. “As pessoas valorizam a carne. Tem o churrasco, que é um momento de estar com a família. E além do valor cultural, a carne é um alimento rico e muito nutritivo. Então é absurdo achar positivo que as pessoas estejam excluídas do acesso à carne como se isso fosse uma solução climática.”

A pesquisadora explica que poder escolher o que comer é uma questão de justiça alimentar. E a redução do consumo de carne precisa vir de um processo de conscientização e de diversificação da dieta. Ela ressalta que nas periferias das cidades brasileiras há menos oferta de frutas e verduras e quase inexistem produtos orgânicos.

“O papel do nutricionista é ensinar as pessoas a comer melhor”, defende Santiago. “São sim necessárias políticas públicas que melhorem o acesso ao alimento e formas de produção mais sustentáveis e saudáveis, mas quem está comprando o alimento, tem que saber o que está comendo, seja o produto natural até o mais processado - o indivíduo tem que saber como aproveitar aquela comida e como fazer escolhas.”

Como fazer

Você já viu aqui como projetos para produzir comida em bairros das grandes cidades podem gerar emprego, saúde e segurança alimentar.

Para saber mais

O podcast Comida que Sustenta, do projeto Sustentarea, responde a dúvida e comentários do público com a participação de chefes de cozinha e pesquisadores da área de nutrição.

O livro Biodiversidade brasileira: sabores e aromas têm 400 receitas com produtos ainda pouco conhecidos da biodiversidade brasileira e pode ser baixado de graça aqui.

A obra é resultado de uma colaboração entre pesquisadores, cozinheiros indígenas e/ou que tenham conhecimento tradicional sobre alimentos, chefes de cozinha e outros profissionais da gastronomia e da nutrição.

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