Como aquecimento global pode estar por trás de 200 mil casos de doença renal no Brasil

Pesquisa feita por instituições brasileiras e australianas sugere um efeito direto das mudanças climáticas na saúde humana.


Por André Biernath, BBC



Cuidar dos rins num cenário de aquecimento global exige as mais variadas ações, que vão desde atitudes simples até políticas públicas complexas. — Foto: Getty Images via BBC


Um estudo que analisou dados de centenas de cidades brasileiras ao longo de 16 anos sugere que o aumento de 1 grau Celsius na temperatura média pode elevar em quase 1% o risco de internações por doenças que afetam os rins.


O estudo feito pela Universidade de São Paulo (USP) e pela Universidade Monash, da Austrália avaliou os registros de saúde de 1.816 cidades brasileiras entre 2000 e 2015. No período, foram registradas mais de 2,7 milhões de internações relacionadas a problemas nesses órgãos, como pielonefrite (um tipo de inflamação), falência renal aguda e doença renal crônica.


O trabalho, recém-publicado no periódico especializado The Lancet Regional Health - Américas, sugere que 7,4% de todas essas internações, ou 202 mil casos de crise renal, podem ser atribuídas diretamente ao aumento da temperatura.


A título de comparação, 202 mil pessoas equivalem aproximadamente a população inteira de cidades como Araçatuba (SP), Lauro de Freitas (BA) ou Passo Fundo (RS).


Aquecimento global e desidratação

Embora o estudo seja de associação e não permita estabelecer uma relação direta de causa e efeito, os autores especulam algumas possíveis explicações para a ligação entre aumento da temperatura e mais doenças nos rins.

"De forma geral, os problemas renais podem acontecer por causa da desidratação, que está relacionada ao aumento na temperatura", explicam os médicos Yuming Guo e Shanshan Li, professores de saúde ambiental e saúde pública da Universidade Monash e autores principais do artigo.

Eles responderam por e-mail a algumas perguntas enviadas pela reportagem da BBC News Brasil


A mecânica é relativamente simples: no calor, o suor ajuda a manter a temperatura corporal estável. Mas a perda de líquidos pode dificultar o trabalho dos rins, que sofrem para cumprir a sua missão de filtrar o sangue e manter o equilíbrio de diversas substâncias essenciais para nossa sobrevivência.


Esses órgãos, então, podem passar por crises agudas e deixam de funcionar como deveriam ou sofrem com infecções e inflamações decorrentes de todo esse desgaste.

O trabalho recém publicado ainda observou que a saúde renal de alguns grupos acaba mais afetada pelo aumento da temperatura. Os que mais sofrem com a subida do calor são as mulheres, as crianças com menos de 4 anos e os idosos com mais de 80 anos.


Para o patologista Paulo Saldiva, professor da Faculdade de Medicina da USP e um dos cientistas brasileiros que assinam o estudo, dois fatores ajudam a explicar essa maior vulnerabilidade, especialmente nos extremos da vida.

"Indivíduos muito jovens ou muito idosos costumam ter o 'termostato' do corpo, que envolve receptores na pele responsáveis por perceber o calor, imaturo ou desregulado. Com isso, o organismo não aciona muito bem os mecanismos que regulam a temperatura", afirma.

Além disso, é necessário ofertar água continuamente para pessoas dessas faixas etárias, pois a percepção de sede é diferente e se modifica ao longo da vida.

Sem a vontade de beber água (ou sem a possibilidade de pegar um copo por conta própria, no caso dos bebês), o risco de desidratação fica ainda mais alto. E essa sequência de características e particularidades dessas idades prejudica, mais uma vez, os rins.

Uma 'epidemia' silenciosa

A médica Andrea Pio de Abreu, diretora da Sociedade Brasileira de Nefrologia, classifica as doenças renais como um problema de saúde pública oculto no país.

"No Brasil, uma em cada dez pessoas tem doença renal e muitas nem sabem disso, pois não apresentam sintomas e nunca fizeram o diagnóstico", alerta a nefrologista, que não esteve envolvida diretamente com a pesquisa publicada no The Lancet.

"O problema é que esses quadros podem permanecer ocultos por anos e os rins só dão algum sinal quando operam com menos de 50% da capacidade original", conta.

Segundo dados da própria Sociedade Brasileira de Nefrologia e outras entidades da área de saúde, cerca de 140 mil brasileiros passam por diálise atualmente. O procedimento, feito algumas vezes na semana, exige que o paciente se conecte a uma máquina, que passa a fazer o trabalho de filtragem do sangue.


A diálise é indicada num estágio avançado das doenças renais, onde os órgãos não conseguem mais realizar seu trabalho como antes.


Abreu alerta que hipertensão (pressão alta) e diabetes são as principais causadoras de problemas do tipo.

"Juntas, essas duas enfermidades são responsáveis por mais de 70% dos casos de doença renal crônica", calcula.

A médica também se mostra preocupada com as mudanças climáticas e essa relação entre temperatura e saúde dos rins evidenciada no estudo. "Os quadros de desidratação são muito frequentes em épocas de calor intenso, e precisamos ter cada vez mais atenção com esse risco", admite.

Como se proteger?

Cuidar dos rins num cenário de aquecimento global exige as mais variadas ações, que vão desde atitudes simples até políticas públicas complexas.

Os cientistas Guo e Li adiantam que as cidades mais afetadas pelas mudanças climáticas precisarão criar sistemas de alarme para proteger a saúde das pessoas.

"Alguns países, por exemplo, vão necessitar de uma comunicação eficiente para ensinar a população sobre os cuidados e eventualmente até criar 'centros de resfriamento' nas temporadas de verão", sugerem.

Saldiva também cita as mudanças em ambientes urbanos que podem segurar o avanço da temperatura. "É preciso fazer uma recomposição da cobertura vegetal das cidades, que em muitos casos viraram um deserto de lajes de concreto", classifica.

"Nos períodos de calor, também devemos ter maior atenção com os mais vulneráveis, como crianças e idosos, se hidratar bem e usar roupas leves", acrescenta o patologista.


"Também é importante passar por consultas médicas regularmente, controlar diabetes e hipertensão e fazer testes simples que avaliam a saúde renal, como o exame de urina e a dosagem da creatinina no sangue, que são amplamente acessíveis no sistema público brasileiro", acrescenta Abreu.


Por fim, a nefrologista cita uma estratégia fácil de adotar no dia a dia para prevenir problemas mais sérios: olhar a cor da urina, que deve sempre ser amarela clara ou quase transparente.

"Se ela estiver muito amarelada ou escura, é sinal de que não estamos bebendo água o suficiente", conclui a médica.

Urgência das mudanças climáticas

Pesquisas desse tipo já haviam sido feitas em outros países.


"Até então, os estudos que investigam as doenças renais relacionadas ao calor foram conduzidos nos países desenvolvidos, e tínhamos poucos dados disponíveis sobre o que acontece em nações de baixa e média renda, como o Brasil", observam Guo e Li.


"Essas enfermidades são uma preocupação na saúde pública e estiveram relacionadas com 2,5 milhões de mortes no mundo em 2017. Precisamos entender melhor como as alterações de temperatura influenciam esse cenário", dizem os especialistas.

Para o patologista Paulo Saldiva, entender a relação entre fatores ambientais e saúde aproxima a ameaça das mudanças climáticas da realidade de todos nós.

"Aquele discurso distante, de que precisamos mudar as coisas para estabilizar a temperatura daqui a 70 anos e salvar a Amazônia e os ursos polares, é substituído pela urgência do agora, pois o problema está aqui na nossa frente", analisa.

"Não precisamos esperar tanto tempo para a situação ficar ruim. As mudanças climáticas estão acontecendo e já afetam a nossa saúde", chama a atenção.





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