Humanos transformaram um quinto do planeta em apenas 60 anos, diz estudo

Pesquisa publicada na "Nature Communications" conclui que, desde 1960, a humanidade alterou 43 milhões de quilômetros quadrados, equivalente às áreas da África e Europa combinadas


Por Revista Galileu



Foto: kazuend - Unsplash


Desde 1960, a humanidade já alterou o uso de uma área de 43 milhões de quilômetros quadrados, transformando, por exemplo, florestas em espaços agrícolas e savanas em pastagens. A degradação das áreas naturais foi quatro vezes maior do que previam estimativas anteriores e equivale às áreas da África e Europa combinadas.


Esse cenário de devastação, que afetou aproximadamente um quinto do planeta, foi indicado por especialistas do Instituto de Tecnologia de Karlsruhe, na Alemanha, e da Universidade de Wageningen, nos Países Baixos. A conclusão está em uma pesquisa, publicada nesta terça-feira (11) no jornal acadêmico Nature Communications.


Os pesquisadores descobriram que 32% das terras do nosso planeta foram degradadas devido as atividades humanas nos últimos 60 anos. Os cientistas estimam que, desde 1960, a humanidade tem mudado o uso de terras de uma área equivalente ao dobro do tamanho da Alemanha todos os anos.


“Os humanos moldaram a superfície da terra por muitos séculos”, conta Karina Winkler, líder do estudo, ao jornal online britânico The Independent. “Na verdade, cerca de três quartos da superfície global da terra passaram por algum tipo de manejo humano. Em nosso estudo, nos concentramos nos últimos 60 anos (1960-2019) e descobrimos que a mudança no uso da terra afetou quase um terço da superfície da Terra neste período.”

A nova pesquisa teve como base imagens de satélite de alta resolução e estatísticas a longo prazo reunidas pela Organização para Agricultura e Alimentação (FAO), que revelam dados sobre áreas urbanas, plantações, florestas, pastagens, desertos e assim por diante.


Se por um lado, nos últimos 60 anos, houve um aumento de áreas florestais no norte do planeta (como na Europa, na Rússia, no Leste Asiático e na América do Norte), por outro, a perda florestal foi drástica em países do Hemisfério Sul devido à expansão de terras agrícolas, criadas para atender as demandas de países ricos.



Mapa mostra em amarelo mudanças únicas nas áreas e em vermelho múltiplas mudanças na cobertura da terra, considerando o período de 1960 a 2019 (Foto: Karina Winkler et.al)


“Ocorreu desmatamento tropical para a produção de carne bovina, cana-de-açúcar e soja na Amazônia brasileira; dendê no sudeste da Ásia e cacau na Nigéria e Camarões”, cita Winkler, em entrevista à Agência France-Presse (AFP).


O estudo também mostra que as mudanças no uso da terra dependem do aspecto econômico. As alterações foram mais aceleradas durante a Revolução Verde nas décadas de 1960 e 1970; mas também foram velozes durante a expansão dos mercados globalizados até o ano de 2005.


Em 2008, o mundo enfrentou uma Grande Recessão, na qual o preço do barril do petróleo subiu para cerca de US$ 145. Isso acabou diminuindo a demanda global por commodities e alimentando a conversão de florestas em plantações de bioenergia, segundo os pesquisadores.


“Encontramos indícios de fatores que aceleraram a mudança no uso da terra, como o comércio global, mas também o efeito de desaceleração que uma crise econômica pode ter sobre a mudança no uso da terra”, comenta Winkler, ao The Independent.


A pesquisadora afirma ainda que tais mudanças são o segundo maior contribuinte para as emissões de gases de efeito estufa. Essa questão desempenha, portanto, um papel importante no combate às mudanças climáticas e à perda de biodiversidade.


Ela sugere também que a pandemia de Covid-19 pode servir como catalisador para ajudar a humanidade a repensar as cadeias de suprimentos globais. “Talvez estejamos em um ponto de direcionar o uso da terra para uma direção mais sustentável. Sim, o uso da terra tem sido um problema para o meio ambiente, mas também pode ser parte da solução”, conta.


Esta matéria faz parte da iniciativa #UmSóPlaneta, união de 19 marcas da Editora Globo, Edições Globo Condé Nast e CBN. Saiba mais em umsoplaneta.globo.com.

11 visualizações0 comentário