Menos produtos animais: bom para o clima, fome para milhões?

Uma dieta mais vegetal e menos animal: eis uma fórmula simples para alimentar de modo sustentável a crescente população do planeta. Mas para milhões que dependem do gado para sobreviver, a questão é mais complicada.


Por DW Brasil



Criação de animais domina 75% das terras aráveis, polui a água e gera desmatamento


Pesquisadores ambientais há muito elogiam os benefícios de se consumir menos carne e produtos animais, em vista dos benefícios não apenas para a saúde humana, mas também a do planeta.


As emissões diretas e indiretas do setor pecuário – que inclui bovinos, caprinos, ovinos, suínos e aves – são responsáveis pelo equivalente a 7,1 gigatoneladas de dióxido de carbono todos os anos, cerca de 14,5% de todas as emissões causadas pelos seres humanos.


A estimativa é da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), segundo a qual cerca de 65% das emissões do setor pecuário podem estar vinculadas à produção de carne bovina e laticínios.


Mas não são apenas as emissões que se apresentam como um problema para o planeta: a criação de animais domina cerca de três quartos das terras propícias para a agricultura, polui a água e gera desmatamento, especialmente na floresta tropical da Amazônia.


Por que tantos ainda precisam de carne


Certamente não faria mal ao mundo ocidental reduzir seu consumo de carne. Os europeus, por exemplo, consomem duas vezes mais carne do que a média global e cerca de três vezes mais laticínios. Mas a situação é completamente diferente no Hemisfério Sul.


Mais de 1,5 bilhão de seres humanos não podem se dar ao luxo de uma dieta que atenda aos níveis exigidos de nutrientes essenciais, de acordo com estimativas da FAO, e os animais fornecem uma fonte vital de proteína na forma de leite, carne e ovos.

"Pode-se encontrar alimentos nutritivos em muitas coisas, como leguminosas, frutas e vegetais. Mas o setor pecuário e os laticínios são peças-chave", disse Carin Smaller, diretora de agricultura, comércio e investimentos do Instituto Internacional para o Desenvolvimento Sustentável (IISD), em entrevista à DW.


Um importante relatório sobre a fome mundial e as mudanças climáticas divulgado nesta semana pela Ceres2030 – uma parceria entre o ISSD, o Instituto Internacional de Política de Pesquisa Alimentar (IFPRI) e a Universidade Cornell, nos Estados Unidos – destacou a conexão entre gado, subsistência e terra.


"Nessas áreas onde se vê a fome considerável, a pecuária é integrada à produção da fazenda: o gado cria estrume, que fertiliza o milho, que é consumido tanto pelo homem como pelo gado. O gado é uma peça-chave para manter este sistema", observa Isabelle Baltenweck, do Instituto Internacional de Investigações Pecuárias, um colaborador do relatório Ceres2030.


O relatório aponta que cereais como arroz e milho ajudaram muitos países a atenderem às necessidades calóricas mínimas, mas o foco nessas culturas também "desencorajou a produção de uma diversidade de alimentos cultivados e não cultivados, incluindo os de origem animal, que proporcionam melhores resultados nutricionais".


Cerca de 690 milhões em todo mundo enfrentaram fome crônica em 2019, segundo o Índice Global da Fome


Papel do gado no combate à fome


A pecuária também permite que milhões de trabalhadores agrícolas, pastores e pequenos proprietários com acesso limitado à terra ganhem seu sustento, de acordo com Baltenweck. Este suporte crítico, aliado aos benefícios nutricionais reconhecidos, tornam os animais parte importante dos esforços para eliminar a fome e a desnutrição.

O Índice Global da Fome (GHI, na sigla em inglês) revelou em meados de outubro que enfrentaram fome crônica em 2019 cerca de 690 milhões, em todo mundo – mais do que o dobro da população dos Estados Unidos.


"Na próxima década, o crescimento econômico ajudará a reduzir a pobreza e a fome em todo o mundo, mas não será suficiente, especialmente para os agricultores", acrescenta David Laborde, pesquisador do IFPRI.


Caso nada seja feito para enfrentar o problema, a FAO projeta que o número dos que sofrem fome extrema pode alcançar 840 milhões nos próximos dez anos. Já se conta que o problema será severamente agravado pela pandemia de covid-19 e suas consequências econômicas, principalmente na África Subsaariana e no Sudeste Asiático.


US$ 300 bilhões para "acabar com a fome" até 2030


O projeto Ceres2030, uma pesquisa aprofundada de mais de 100 mil relatórios agrícolas e artigos publicados nos últimos 20 anos, concluiu que seriam necessários 300 bilhões de dólares adicionais para atingir a meta de desenvolvimento sustentável da ONU de "acabar com todas as formas de fome e desnutrição até 2030".


De acordo com o relatório, para que essa meta seja atingida, os doadores internacionais precisariam prover 14 bilhões de dólares adicionais por ano, com os países de baixa e média renda preenchendo a diferença, com 19 bilhões anuais.


O dinheiro iria para a melhoria dos sistemas de armazenamento, transporte e processamento de alimentos. Também aumentaria a formação, o trabalho em rede e o apoio financeiro aos agricultores, especialmente aos jovens e mulheres que frequentemente ficam excluídos. As mulheres, que representam cerca de dois terços dos criadores de gado em países de renda baixa e média, também têm maior probabilidade de sofrer de insegurança alimentar.


Cerca de 690 milhões em todo mundo enfrentaram fome crônica em 2019, segundo o Índice Global da Fome


No nível agrícola, esses fundos também iriam para o desenvolvimento de soluções favoráveis ao clima, como safras mais resistentes e tecnologia de agricultura verde para ajudar o setor pecuário a reduzir suas emissões agrícolas.


"Não faltam ideias, inovação e tecnologias, mas elas não estão sendo adotadas e usadas pelos mais pobres", disse Smaller, citando como exemplo a produção de laticínios em algumas partes da África, que chega a ser até 20 vezes inferior à de países desenvolvidos.


"Caso possamos aumentar a produtividade dessas vacas, não apenas forneceremos mais laticínios para os habitantes desses países de baixa renda e altos níveis de fome, mas também reduziremos as emissões de gases do efeito estufa associadas a cada litro de leite."


Com o gado mais produtivo, o tamanho do rebanho poderia ser limitado, assim como os níveis de metano, um potente gás-estufa também produzido pelo gado e responsável por quase metade de todas as emissões da pecuária.


Algumas outras práticas sustentáveis incluem:


- fazer uso de resíduos de colheita (incluindo caules, folhas, cascas, raízes e sementes) para alimentar os animais, reduzindo a necessidade de compra de ração.

- gerir pastagens para aumentar a qualidade da vegetação que os animais comem e, ao mesmo tempo, gerar uma potencial queda nas emissões.

- melhorar a saúde animal por meio de suplementos alimentares e cuidados veterinários, que aumentem a produtividade.

- apresentar tecnologias de baixo consumo de energia, como digestores anaeróbicos, que decompõem o estrume em biogás, uma fonte de energia renovável.


Por uma "revolução agrícola verde global"


Embora as doações em meados de outubro de 2020 tenham alcançado um total de 300 milhões de dólares, dos governos de Espanha, Noruega, Austrália e Alemanha e da Fundação Bill & Melinda Gates (casal de filantropos que também cofinancia o Ceres2030), são cada vez mais urgentes os apelos para que se faça mais.


O ministro alemão do Desenvolvimento, Gerd Müller, por exemplo, destacou que o planeta tem potencial para alimentar 10 bilhões, e que seria necessária uma "revolução agrícola verde global" semelhante ao movimento climático Fridays for Future (Greve pelo Futuro).


Müller pediu mais apoio financeiro e político de protagonistas globais como China, Estados Unidos, União Europeia e União Africana. Smaller também pleiteou por mais ação: "Se se levar a sério o objetivo de erradicar a fome, proteger o clima e melhorar a renda dos produtores mais pobres do mundo, todos precisarão contribuir. Definitivamente isso não vai acontecer apenas com os doadores tradicionais do G7."

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O projeto Tempo de Aprender em Clima de Ensinar foi criado pela equipe do Laboratório de Meteorologia da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (LAMET/UENF), com o intuito de discutir com alunos e professores de escolas públicas as diferenças entre os conceitos de “tempo” e “clima” através de avaliações e estudos das características da atmosfera.

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