No Sudeste, estado de SP tem mais registros de eventos extremos em novo padrão de chuvas, diz Inpe


Desde 2015, foram 730 registros de chuva intensa no estado de São Paulo. Cidades litorâneas, inclusive a capital fluminense e Angra dos Reis, estão no topo da lista.



Cidades populosas e chuvas intensas são uma combinação propícia para alagamentos, deslizamentos e famílias desalojadas. Entre os municípios com mais de 100 mil habitantes do Sudeste, mais da metade dos picos de chuva dos últimos cinco anos ocorreu em localidades do estado de São Paulo. A cidade mais afetada, no entanto, é fluminense: Angra dos Reis teve 44 registros de precipitação extrema desde 2015.

Os dados são do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e coletados pelo Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), com base em informações dos satélites e de estações de superfície (pluviômetros). O grupo de cientistas diz que essas ocorrências estão mais frequentes e um dos motivos é o aquecimento global.


São eventos extremos:

  • Tornado

  • Granizo com mais de 2 centímetros

  • Rajada de vento superior a 90 km/h

  • Chuva com precipitação superior a 40 mm/h


Para detectar esses fenômenos de chuva no Sudeste, a equipe de meteorologistas do CPTEC determinou o seguinte critério: precipitação com mais de 50 mm/h registrada nas cidades com mais de 100 mil habitantes. A ideia era mostrar os registros da combinação de chuva com uma urbanização maior na região.


Nesta segunda-feira (10), a cidade de São Paulo registrou, no intervalo de 24 horas, o maior volume de água para um mês de fevereiro em 37 anos. Em janeiro, as chuvas fortes atingiram 51 cidades de Minas Gerais, 28 do Espírito Santo e 18 no Rio de Janeiro, deixando 12 mil pessoas desalojadas, 4 mil desabrigados e causando 40 mortes.



Izabelly Costa, cientista do CPTEC, diz que São Paulo tem mais cidades populosas e com grandes áreas urbanizadas e é natural, por isso, que tenha mais registros. Já Gilvan Sampaio, doutor em Meteorologia pelo Inpe, lembra que as cidades litorâneas têm uma propensão maior a enfrentar esse tipo de evento, como no caso das já citadas Angra (RJ), Guarujá (SP) e Santos (SP). A umidade e o aumento das temperaturas são os dois principais fatores.



Mudança de padrão

A cientista brasileira Márcia Zilli fez o doutorado na Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, nos Estados Unidos, e estudou como está o padrão de chuvas da região Sudeste com base em dados dos últimos 70 anos.


"Constatamos uma certa mudança no padrão. Não é tanto um aumento nas chuvas. Na verdade, é mais tempo sem chuva, mas com uma intensidade maior quando acontece", disse a pesquisadora.


Márcia continua estudando, agora em Oxford, no Reino Unido. Em entrevista ao G1, antes da chuva registrada em São Paulo nesta segunda, disse que seu estudo apontava uma ocorrência maior destes eventos para os paulistas.


Os estragos, de acordo com os cientistas do Inpe, estão relacionados à chuva somada a problemas antigos: ocupação desordenada e falta de planejamento das cidades e de medidas preventivas.

"Os eventos meteorológicos extremos podem ocorrer em diferentes escalas espaciais e temporais, com ações que podem variar de minutos a meses, por exemplo, uma tempestade que causa tempo severo ou uma seca prevista para durar os próximos meses", explicou Maicon Veber, meteorologista do CPTEC.


Mudanças do clima

As chuvas intensas sempre existiram, assim como todos os eventos extremos. O que os estudos sobre aquecimento global apontam é um aumento na frequência e um período maior de seca entre as chuvas.


Um deles, publicado pela "Nature Climate Change" em agosto do ano passado, usou análise estatística para prever um cenário 2ºC acima da temperatura média registrada nos anos pré-industriais. Teremos mais calor, mais seca e, como já estamos vendo, mais chuvas. Essas previsões são apoiadas por centenas de cientistas do clima que assinam os alertas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).

Gilvan Sampaio explica que não é possível estimar quanto desses eventos é uma influência direta do aquecimento global. Mas, segundo ele, é fato que há um papel das mudanças do clima. Junto com o impacto das emissões, as mudanças de uso do solo - urbanização desenfreada, desmatamento - são a segunda causa dos eventos extremos.


"Um dos efeitos do aumento da temperatura é simples de entender: aumenta a temperatura, então aumenta a evaporação na atmosfera. As nuvens ficam mais crescidas e chuvas ficam mais intensas", explica Sampaio.


O pesquisador fala que a "atmosfera não tem fronteira" e que uma "emissão no outro lado do mundo, então, pode ter um efeito aqui no Brasil". Os gases do efeito estufa são a causa das mudanças da temperatura global, emitidos principalmente por Estados Unidos e China.

Em um exemplo mais local dessas mudanças, Sampaio lembra de São José dos Campos, em São Paulo. Estudo do Inpe mostra que na década de 1970 eram 23 casos de chuva intensa e, agora, são até 45 casos de chuva intensa por ano.


Mudança do uso do solo


A retirada da vegetação para a construção de uma cidade é uma mudança no uso do solo. Assim como a retirada de uma floresta para uma plantação de soja.


Além das mudanças globais, existem as mudanças regionais. As ilhas de calor, causadas pelo aumento desordenado das cidades, também influenciam na temperatura e no regime de chuvas.

"Em São Paulo, a brisa marítima, que vinha do mar, se modificou ao longo do tempo com o crescimento dos prédios e da cidade. Já Belo Horizonte está mais longe do mar, tem outra formação como cidade. Temos que levar em consideração muitos fatores, por isso as características de cada cidade tem uma proporção de influência".


Fonte



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O projeto Tempo de Aprender em Clima de Ensinar foi criado pela equipe do Laboratório de Meteorologia da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (LAMET/UENF), com o intuito de discutir com alunos e professores de escolas públicas as diferenças entre os conceitos de “tempo” e “clima” através de avaliações e estudos das características da atmosfera.

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